Nós já conversamos aqui sobre como as músicas do Belchior podem nos ajudar a entender sobre xenofobia e sobre o contexto de migrações nordestinas para o Sul do país durante o século XX. No post dessa semana eu quero discutir sobre o conceito de xenofobia, apresentando algumas noções importantes sobre o termo e refletindo como sobre como essa temática será uma pauta recorrente nesse momento de conflito entre Rússia e Ucrânia.

De acordo com o Historiador Durval Muniz de Albuquerque Junior (2016), xenofobia é o medo e aversão ao estrangeiro. Contudo, existem diferentes maneiras dessa xenofobia se manifestar, dependendo de cada cultura, sociedade e contexto histórico particular. Por exemplo, no Brasil fica evidente a xenofobia atrelada particularmente a questões raciais e econômicas –  expliquei melhor isso quando relacionei as composições de Belchior sobre migração nordestina ao tema da xenofobia – ou seja, a xenofobia se manifesta por aqui de maneira mais violenta e excludente nos nossos regionalismos e nas migrações internas, bem como em migrações estrangeiras em que o local de origem de quem migra tenha fatores econômicos e raciais que nos causa aversão. Neste sentido, um migrante europeu, branco não causaria tanto desconforto por aqui quanto um migrante nigeriano, haitiano ou nordestino, especialmente se o ponto de referência migratória for as regiões mais ao sul do Brasil.

Para além dessas noções mais generalizantes sobre xenofobia, é sempre importante ressaltar que, da perspectiva de Durval Muniz de Albuquerque Junior, nós só conseguimos compreender corretamente o fenômeno da xenofobia quando analisamos situações xenófobas especificas, ou seja, por mais que saibamos que no Brasil nossas manifestações xenófobas estão mais atreladas a fatores raciais e econômicos, isso não determina uma regra, justamente porque existem diferentes maneiras dessa xenofobia acontecer. O importante é sempre analisarmos situações específicas para compreendermos como determinada atitude xenófoba está acontecendo e por quais razões.

Isso nos leva a outro ponto importante da nossa reflexão: o conflito Rússia e Ucrânia. Em uma matéria publicada pela Isto É em dez de março 2022, a manchete já aborda como o Brasil tem se preparado para receber refugiados ucranianos que buscam abrigo diante do conflito. Toda a organização para receber estes refugiados partiu de iniciativas privadas, culturais e religiosas, especialmente da comunidade de ucranianos que residem aqui desde o século XX. Uma força tarefa foi montada às pressas com o objetivo de acolher com a melhor estrutura psicológica e física possível estes migrantes. Ao mesmo tempo, outros conflitos pelo mundo estão acontecendo, especialmente na África e Ásia mas, estes migrantes que também buscam por abrigo não recebem a mesma importância tanto aqui no Brasil como em outros lugares do mundo.

Em geral, são sociedades que enfrentam as consequências dos processos de dominação imperialista da segunda metade do século XIX e que foram totalmente desestruturadas e enfraquecidas.

Fonte: Investing

Outro elemento coloca em evidência a xenofobia neste conflito atual: os refugiados de diversas partes do mundo que se abrigavam na Ucrânia e que agora precisam buscar por abrigo novamente. Em uma matéria veiculada na BBC News Brasil no dia primeiro de Março de 2022, o ex-oficial afegão Seiddiqi de 36 anos que se refugiava na Ucrânia desde a tomada do Talibã no Afeganistão relata que quando o conflito se iniciou na Ucrânia, os refugiados de diversas partes do Afeganistão foram lançados à própria sorte. De acordo com a matéria, cerca de 250 refugiados foram deixados no meio do nada e tiveram que fugir a pé. Seiddiqi afirma estar a cerca de 47 quilômetros da estrada principal mais próxima e o grupo de refugiados ter que caminhar o trecho todo já que seu pedido por transporte foi negado. Outro relato de um refugiado afegão na Ucrânia, Ahamed Sajad, também ex-oficial afegão, afirma que as pessoas estavam andando em Kiev para qualquer direção, totalmente perdidos já que seus passaportes estavam com o governo e não podiam ir para nenhum lugar. Em outro momento do relato ele diz: “O problema agora é que ninguém está aqui para nos ouvir ou cuidar de nós. Eu me sinto arrasado, não temos embaixada ou um governo ou mesmo uma identidade. Não temos ninguém do nosso lado” (Ahamed Sajad, BBC News, 2022).

Fonte: Brasil de Fato

O relato de Sajad escancara uma das facetas mais cruéis da xenofobia, aquela que destitui o outro de identidade, humanidade e valor. Hierarquiza a importância humana por critérios como origem, cor da pele, língua e costumes, na maioria das vezes estereotipados. É o mesmo critério racista desenvolvido a partir do contato europeu com outras culturas pelo mundo. É o critério racista que ganhou seu respaldo teórico nas teorias do Darwinismo Social durante a expansão Imperialista europeia e norte-americana pelo mundo.

Compreender a xenofobia atualmente significa, também, prestar atenção a outros preconceitos que se unem em situações xenófobas e consequentemente aumentam o caráter violento desse fenômeno. Com certeza, falaremos mais desse tema nas próximas postagens. Até a próxima!

Fontes:

JUNIOR, Durval Muniz de Albuquerque. Xenofobia: medo e aversão ao estrangeiro. São Paulo: Cortez, 2016.

Benedita e Manoel: memórias do fenômeno migratório (nordeste e sul), Laiza Campos 2021.

Brasil se prepara para receber imigrantes ucranianos

Os refugiados que escaparam da guerra no Afeganistão e enfrentam outra na Ucrânia

Professora Laiza Campos

Laiza é professora de História, Sociologia, Geografia e Atualidades na Nautae. É mestra em História Pública (UNESPAR), com bacharel e licenciatura em História pela mesma instituição. Também possui experiência como pesquisadora e produtora audiovisual.

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